Sou formada de riscos e rachaduras, minha aparência apática permite que a luz trespasse através de mim e reflita em minha frente, obrigando-me a constatar que sou, de fato, transparente. Toda a solidez que um dia tive como humana se foi; a segurança de se locomover entre eventos e situações com integridade foi se desintegrando aos poucos, formando sobre minha pele pequenos cortes que romperam com toda a dureza de minha casca. Não nomeio minhas fragilidades com esse nome e sequer as enxergo dessa forma. Carrego, apesar da dor, orgulho de cada marca que irrompe em mim. Elas, ao contrário de tantos que percorreram o meu caminho e fugiram, permanecem comigo. Essas rachaduras parecem distantes, feitas em um passado esquecido cuja intenção é de fato esquecê-lo, entretanto jamais o faria, pois assim esqueceria de mim mesma. Sou formada de cortes e cicatrizes, de uma angústia física que parecia mais suportável da qual guardava no peito. Eles parecem agressivos, uma forma de rebeldia ...